Excertos da apresentação que teve lugar dia 11/12/2008 no Homem ao Mar Dive
Center, em Lisboa com a presença do Fernando Reis, especialista em tubarões.
"Vivemos num planeta que
paradoxalmente se chama Terra, mas é coberto em 71% da sua superfície por mares
e oceanos. Se a primeira visão do nosso planeta fosse tomada do espaço, ele
seria provavelmente designado por 'Planeta Azul', ou por 'Água' em vez de
Terra.
Porque o nosso
conhecimento da vida submarina é relativo às camadas de água mais superficiais,
não sabemos muita coisa para lá dos 100 metros de profundidade, e porque isso
não chega a 8% da superfície dos mares que cobrem o nosso planeta, ninguém
poderá afirmar com segurança conhecer toda a verdade sobre tubarões.
No entanto, algumas coisas
sabemos. Pertencem e constituem a classe dos peixes com esqueleto cartilegineo,
ou seja sem esqueleto ósseo. Juntamente com as raias, classificam-se em seis
ordens principais e existem mais de 1100 espécies diferentes. A sua pele é
constituida por escamas placóides tão eficientes na sua natação que inspiraram
já os mais rápidos fatos de natação criados pelo homem.
Nos oceanos, eles são
rápidos, são ágeis, e constituem o grupo de peixes mais evoluído que se
conhece: são mais de 400 Milhões de anos de evolução e equilíbrio da vida nos
oceanos. Por serem tão antigos, eles são os grandes arquitectos das espécies
marinhas actualmente existentes.
Mais: os tubarões são
normalmente os predadores de topo na larga cadeia alimentar submarina. A sua
maturidade reprodutiva é por isso mais tardia do que muito provavelmente em
todos os outros peixes ou até na espécie humana. Por alguma razão têm poucos
juvenis por cada geração.
Na base da grande cadeia
alimentar marinha estão os grupos dos seres vivos mais pequenos do mar: o
plancton animal e o plancton vegetal. E o que é que isto importa? Pois a
verdade é esta: calcula-se que mais de 70% do oxigénio que respiramos seja
produzido pelo phitoplancton.
Com estes dados,
percebe-se rapidamente que um desequilíbrio no topo da cadeia alimentar marinha
pode ser dramático para os produtores de oxigénio na base da cadeia. Os
tubarões não podem desaparecer senão, em poucas décadas, podemos ficar sem ar
respirável no planeta.
A sopa de barbatana de
tubarão é considerada uma iguaria da cozinha chinesa desde a dinastia Ming,
qualquer que seja a espécie. Usualmente servida nos banquetes e casamentos este
prato é símbolo de prestígio e de saúde na cultura chinesa. Com o recente boom
da economia chinesa, a procura de barbatanas de tubarão tem vindo a aumentar
exponencialmente nos anos mais recentes.
Uma verdade sobre tubarões
é que as suas espécies estão hoje a ser dizimadas por motivos comerciais. O
poder económico da China induziu o aparecimento nalguns meios pescatórios da
actividade designada por “shark finning”. Muito do comércio de barbatanas de
tubarão começa no corte das barbatanas aos animais ainda vivos no convés dos
barcos de pesca.
Como a carne de tubarão
vale muito menos, os tubarões já sem barbatanas e ainda vivos são atirados
borda fora para o mar, por forma a libertar mais espaço para a carga mais
valiosa – as barbatanas. Quando caiem de novo na água, os tubarões sem
barbatanas não conseguem nadar e afundam acabando por morrer por asfixia ou
perda de sangue.
Quando se mergulha com
tubarões ficam-se a conhecer algumas das suas características, dos seus
comportamentos, e um pouco dos seus habitats. Descobre-se que estes predadores
não procuram comer seres humanos mas, bem pelo contrário, procuram evitar os
seres humanos.
Quando se sai da água e se
procura informação sobre estas espécies, inevitavelmente descobre-se o perigo
em que se encontram actualmente. Inevitavelmente, descobrem-se as campanhas
internacionais com esclarecimentos sobre a sopa de barbatana de tubarão e sobre
o “shark finning”.
Partilhar estas
preocupações entre todos os interessados pode ajudar a salvar o nosso 'Planeta
Azul'.
Fernando Reis
Bibliografia:
- Anderson, R. Charles; 1996, Divers Guide to the Sharks of the Maldives, M. Utility, Malé. -
Campbell, Andrew; 1994, Fauna e Flora do Litoral de Portugal e Europa,
FAPAS - Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, Lisboa. - Dawes, John; 2005, Encyclopedia of Fish, An Essential Guide to Fish of the World, Grange Books, Kent. - Saldanha, Luiz; 2003, Fauna Submarina Atlântica, 4ª Edição, Europa-América, Mem Martins. - Siliotti, Alberto; 2002, Fishes of the Red Sea, Geodia, Verona. - Shreeves, Karl et all; 2005, Encyclopedia of Recreational, Diving, Third edition, PADI, Rancho Santa Margarita. - www. fishbase.org - www. sharksavers.org - www.stopsharkfinning.net - www.thailandlife.com - Stewart, Rob; 2008, SHARKWATER, Sharkwater Productions